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domingo, 12 de dezembro de 2010

O Prosador


A visita que resolveu fazer aos amigos surgiu num estalo a idéia. Aquele dia inspirador, bonito, primaveril, talvez o tenha convencido a um passeio extravagante como esse.

Chegou arrumado, uma pinta de barão, todo chique, trazendo o guarda-chuva pendurado no braço como se assim fosse uma elegante bengala; sempre prosador, bom papo. Nessa tarde, então, andava de um lado a outro explanando idéias, opiniões, ora radicais, outras vezes amenas. Divergia, apoiava com entusiasmo empolgante, animador. Queria conversar, rever todos.

A certa hora, mediante animação envolvendo o ambiente, apresentaram ao amigo visitante uma cachaça que surpreendentemente não conhecia nem de nome: Tiquira. Logo cresceu o olho e não se fez de rogado em experimentar. Gostou. Passou a bebericar, a princípio moderadamente. Um gole aqui, outro acolá, e de gole em gole, entre observações gabava-se de nunca ter sido derrubado por nenhuma danada. Com o decorrer da prosa, os discretos goles passaram a escancaradas talagadas, dando sinais de possível nocaute pela então recém-apresentada Tiquira. Era evidente.

A tarde foi se tornando morna, o sol baixando, a noitinha chegando e o amigo já trocava as pernas. Procurava disfarçar o tremendo pileque, tremendamente visível, apoiando-se no guarda-chuva reduzido à bengala. Mas o pior, talvez, seria aquela ressaca moral do dia seguinte a perturbar-lhe as idéias, cobrando o acontecimento que não desejava e não queria lembrar tão cedo. E balançando o corpo, postado frente à garrafa, ele arrastava a voz em meio a uma frase que tirou não sei de onde, e repetia num insistente, cansativo bordão:

- Ah! Então foi essa que derrubou o guarda?! Foi essa?.. Então foi...

As palavras iam perdendo-se entre risadas, gracinhas, piadas, nascendo assim uma boa história a render por um bom tempo.