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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

No supermercado


Já entro no supermercado convicta de que vou gastar só o necessário. Com o dinheiro curto, contadinho na bolsa e a frase "contenção de gastos", chavão que guardei na cabeça de tanto ouvir governos e políticos querendo mostrar seriedade, mas que não emplaca porque não passa de blefe. Sou povo e não acredito mesmo. Mas isso é outra história que não cabe aqui.

Logo de cara paraliso diante de um stand com flores artificiais extremamente delicadas e bonitas. Tentação! não é possível, sou fascinada por flores e estas aqui estão do jeito que eu quero, têm um ar todo natural. Poderia levar algumas para aquele vaso grande que há tempo precisa de um belo arranjo, pensei; ficaria ideal e minha sala ganharia outra vida! Mas trocar comida por supérfluo é insensatez demais. Caio na real e pego o primeiro carrinho que vejo pela frente. Armada com a listinha na mão procuro apressada me desvencilhar da tarefa do “lar doce lar: quem o definiu dessa forma? Irônico ou não, tem sempre pedacinhos de jiló entremeados nesse doce.

Na disparada de querer sair logo dali topo de cara com minha amiga “chocólatra”, como se autodefine. Quase irreconhecível, magérrima, e pra que isso acontecesse deu um basta no tesão por chocolates e decidiu afinar a silhueta nos moldes do “culto ao corpo”: - Nossa, santa, como você está bela! falei. E a sua gargalhada espalhou sons de felicidade, percebi no seu rosto. Botamos algumas fofoquinhas em dia, um longo abraço pelo longo tempo sem nos vermos e ela seguiu rumo ao caixa com sua cestinha de diets. Fiquei feliz de vê-la assim.

Retorno às compras mal iniciadas. Vou em cada corredor atenta pra não esquecer nada. Sou dispersiva, muitas vezes até a listinha perco, difícil será evitar aquele stand. Se pudesse passar de olho fechado... impossível, vou trombar com alguém e com certeza vão achar que sou meio pirada. No ziguezague com o carrinho outra tentação, só que menor: cremes, xampus e tudo que a propaganda joga com força total para o consumidor. Detenho-me lendo seus efeitos mirabolantes e as mentirinhas embutidas, quero levar pelo menos um, mas novamente o racional me cutuca e lembro que é só o essencial, nada mais.

Já começo me irritar com o tal senso de racionalidade pegando no meu pé, me policiando. Estou na maturidade, extrapolar um pouco não é nada mal, já ganhei experiência suficiente para enxergar com clareza, prós e contras, certos e errados. Paro com o pensamento individualista e me concentro novamente no meu cotidiano coletivo: filhos, neta, direitos iguais, etc.; só então percebo que já está em cima da hora de chegar em casa, tenho um compromisso que por nada quero perder.

Dou mais uma caminhada e logo estou no caixa abraçada a um extravagante e colorido arranjo de flores. No momento é só isso que eu quero, o arroz integral de Larissa ficará para depois.

São Paulo, 5 de dezembro de 1995

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