Os galhos emaranhados intercalavam-se uns aos outros estendidos, cobertos de folhas miúdas permitindo às crianças usufruírem feito um regaço. Um farto colo de mãe que abrigava, acolhia. Acomodava-me ali comendo ginjas; colhendo, enchendo os bolsos do vestidinho de chita, leve, feliz tão quanto a vida era.
No período sazonal comíamos tantas sem dar vencimento; vermelhas, pequenas, rechonchudas, pequeninas e de um azedo... Acostumávamos cedo com o sabor peculiar que brotava das ginjas mastigadas avidamente. Mãos dedicadas, carregadas de capricho preparavam as compotas. Mamãe encomendava-a; eu saciava a gula com o prazer que a infância permitia. Compotas de ginjas. Ginjas em compotas mergulhadas, entrosadas à espessa calda avermelhavam; tingiam com exuberância e transformavam a acidez em suavidade.
Raras casas desfrutavam de uma ginjeira em seus quintais, uma árvore de médio porte. Consta ter sido a primeira, a mais antiga em Guimarães onde a contribuição portuguesa favoreceu o plantio. Seu tronco dava prova dos anos de serventia à natureza, beneficiando passarinhos e crianças, doando-se inteira.
Enquanto a gingeira na simbologia maternal abarcava, aninhava, vivia em outro quintal, em outra morada um jenipapeiro que do alto da soberba altura parecia troçar, desafiando a criançada a alcançar suas frondes e frutos. Imponente assim ele era. Os jenipapos pendurados na rama cresciam; maturavam vigiados pelos olhos infantes curiosos, cuidando em adivinhar, especular o tempo devido de estatelarem-se no chão para juntá-los antes que virassem xepa das galinhas. Quanta impotência em só olhar! Cobiçar os frutos e não poder trazê-los para exibir a bravura desejada. Quanto agradável era sentir aquele sabor diferenciado, misturado ao aroma forte que nem sempre correspondia ao prazer do paladar de quem não estava habituado a saboreá-lo. Já o licor, adquirindo gosto refinado se tornou apreciado e requisitado.
Quando as ventanias atingiam o jenipapeiro, os galhos sacudiam desordenados em contorções e movimentos malabaristicos num inteiro desequilibrio. Passado o temporal, recompunham-se aliviados por um sopro apaziguador. Naquele quintal, só ele reinava. Os arbustos reduziam-se a modestos figurantes na paisagem interiorana, familiar, marcante da minha infância.



