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terça-feira, 3 de abril de 2012

FRUTOS E FOLHAGENS

Os galhos emaranhados intercalavam-se uns aos outros estendidos, cobertos de folhas miúdas permitindo às crianças usufruírem feito um regaço. Um farto colo de mãe que abrigava, acolhia. Acomodava-me ali comendo ginjas; colhendo, enchendo os bolsos do vestidinho de chita, leve, feliz tão quanto a vida era.

No período sazonal comíamos tantas sem dar vencimento; vermelhas, pequenas, rechonchudas, pequeninas e de um azedo... Acostumávamos cedo com o sabor peculiar que brotava das ginjas mastigadas avidamente. Mãos dedicadas, carregadas de capricho preparavam as compotas. Mamãe encomendava-a; eu saciava a gula com o prazer que a infância permitia. Compotas de ginjas. Ginjas em compotas mergulhadas, entrosadas à espessa calda avermelhavam; tingiam com exuberância e transformavam a acidez em suavidade.

Raras casas desfrutavam de uma ginjeira em seus quintais, uma árvore de médio porte. Consta ter sido a primeira, a mais antiga em Guimarães onde a contribuição portuguesa favoreceu o plantio. Seu tronco dava prova dos anos de serventia à natureza, beneficiando passarinhos e crianças, doando-se inteira.

Enquanto a gingeira na simbologia maternal abarcava, aninhava, vivia em outro quintal, em outra morada um jenipapeiro que do alto da soberba altura parecia troçar, desafiando a criançada a alcançar suas frondes e frutos. Imponente assim ele era. Os jenipapos pendurados na rama cresciam; maturavam vigiados pelos olhos infantes curiosos, cuidando em adivinhar, especular o tempo devido de estatelarem-se no chão para juntá-los antes que virassem xepa das galinhas. Quanta impotência em só olhar! Cobiçar os frutos e não poder trazê-los para exibir a bravura desejada. Quanto agradável era sentir aquele sabor diferenciado, misturado ao aroma forte que nem sempre correspondia ao prazer do paladar de quem não estava habituado a saboreá-lo. Já o licor, adquirindo gosto refinado se tornou apreciado e requisitado.

Quando as ventanias atingiam o jenipapeiro, os galhos sacudiam desordenados em contorções e movimentos malabaristicos num inteiro desequilibrio. Passado o temporal, recompunham-se aliviados por um sopro apaziguador. Naquele quintal, só ele reinava. Os arbustos reduziam-se a modestos figurantes na paisagem interiorana, familiar, marcante da minha infância.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Lei Nº 11.340/2006


Não tem porque a lei Maria da Penha ainda ser vista sob um olhar indiferente e preconceituoso por parte de algumas autoridades, que a negligenciam alegando inconstitucionalidade na aplicação. Com a decisão do Supremo Tribunal Federal sua legitimidade consolidou-se, possibilitando a qualquer pessoa ciente e testemunha de agressão e maus tratos denunciar o agressor, independente do consentimento da vítima, que não poderá retirar a queixa.

Um avanço e alento esperançoso para as mulheres que também esperam da justiça andamento rápido, ágil dos processos. A lentidão contribui para facilitar a desistência de muitas vítimas, coagidas e acuadas diante das ameaças dos agressores. E estes, ao verem-se impunes, voltam a desferir violências nas companheiras. Quando as mulheres recorrem aos órgãos de proteção nos seus apelos e desespero estão no limite prevendo um desfecho trágico, mas nem sempre são assistidas com o apoio urgente que anseiam, que o caso e o momento requer.

A violência doméstica e familiar soma índices estarrecedores no país: de 1997 a 2007, 41.532 mulheres foram assassinadas no País, uma média de 10 mortes por dia; a cada duas horas uma mulher é assassinada no Brasil; 4,2 assassinatos por 100 mil habitantes; 68% dos filhos assistem as agressões; 15% sofrem junto com a mãe. (dados do Instituto Sangari colhidos do Mapa da Violência no Brasil, 2010.)

São números desrespeitosos, aviltantes, tristes, vergonhosos. É necessário rigor na aplicação da lei Maria da Penha. É necessário que as políticas para as mulheres sejam atuantes, eficazes. É necessário conscientização para um problema social que remonta a uma cultura machista de supremacia, domínio e posse ainda arraigada na sociedade, com a qual convivemos velada ou escancaradamente alimentando discriminações, preconceitos, segregações; oprimindo e aniquilando. Que prevaleça a igualdade e respeito.

Banalizou-se a vida. Porque banal ficou espancar, assassinar mulheres.












quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Nas alturas






Por que sinto medo de viajar de avião? Essa torturante pergunta instiga-me; indecifrável medo que acabou se tornando exarcebado e já não consigo mais domá-lo sob as rédeas curtas do meu controle e domínio. Há muito ando desencorajada para enfrentar viagens aéreas; o temor de voar se apossou, o que me fez abdicar de conhecer lugares e cidades dos meus sonhos e desejos. As oportunidades foram-se. Perdi todas. Incomodamente aceitei.

O início das primeiras viagens que fiz de avião foram nos pequenos tecos-tecos ou táxi aéreos, como eram chamados os aviõezinhos de quatro lugares muito comuns à época em que faziam linha para várias localidades do Maranhão. O trajeto entre São Luis e Guimarães durava um curto tempo de trinta a trinta e cinco minutos, suficiente para sentir grandes sustos quando o percurso ficava sob o impacto e a mira dos ventos enfurecidos. Mais tarde foi a vez das aeronaves de maior porte, que ofereciam um certo conforto comparado às que circulam atualmente com serviço de bordo que deixa a desejar.

Viajei pela extinta Vasp e guardo grandes recordações. A última viagem a minha terra foi pela saudosa Varig . Bons tempo de Varig. Empresa nacional e pioneira no serviço de voos no Brasil. Dilapidaram, sucatearam e extinguiram desmerecidamente a lendária Varig. Não voei"pelas asas da Panair" como diz a bonita canção de Milton Nascimento lindamente gravada por Elis Regina. "A maior das maravilhas foi voando sobre o mundo nas asas da Panair..."

Ah, como admiro aqueles que amam viajar nas alturas; os que conseguem manter o equilíbrio e, determinados, afugentam seus receios; aqueles que amedrontados não entregam os pontos e lá se vão motivados pelas surpresas e curiosidades. Admiro ainda os mais temerosos, que impõem a si próprios uma psicológica força extrema confinando o pavor que possa assustá-los e despersuadi-los. E como admiro aqueles que dormem o trajeto inteiro o sono dos anjos, acalmados por um possante tranquilizante para despertarem felizes no destino.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mensagem

Aos queridos amigos, leitores e seguidores deste blog que muito o prestigiam. Envio agradecimentos repletos de ternura e apreço do profundo da minha'alma e do coração a todos vocês.

Meus votos de um Ano-Novo felicíssimo, renovado de sonhos e esperanças; fortalecido pela coragem, ousadia, determinação. Fraterno e de Paz.

Com afeto

Cida Nunes

25 de Março


Fazia muito tempo que não retornava à rua 25 de Março para as compras de Natal. Sequer passava perto, receosa de tumulto e quebra-quebra. Desde que ouvi falar das brigas da polícia envolvendo vendedores e ambulantes e, estes, inibidos, coagidos a não exercerem o trabalho na rua, também senti-me inibida e medrosa de andar para aqueles lados. Limitei-me ao comércio do bairro sem grandes surpresas nem grandes opções e, o pior, sendo o preço na maioria das vezes alto e desproporcional.
Acontece que neste dezembro sucumbi ao irresistível convite de uma das filhas para chegarmos até lá. Por alguns segundos passaram-se flashes do que é a famosa e cobiçada 25 de março se tratando de período natalino, uma loucura! Preparei o espírito para uma eventual arruaça, que fosse o que Deus quiser, pensei. Pouco tempo de metrô e descemos na São Bento, estação e referência do nosso itinerário para chegarmos a não menos conhecida Ladeira Porto Geral próxima ao nosso destino.
Contudo, antes de sair de casa ouvi da minha filha recomendações e lembretes daqueles que dizemos aos filhos ainda pequenos. Só que no meu caso houve inversão:
- "Mãe, preste atenção no que lhe digo: quando eu segurar sua mão, não solte! Fique de olho na sua bolsa! Lembre-se que não podemos perder tempo! Vá comprando sem demora o que lhe agrada. Na hora que estiver com fome (eu prevenida já estava com biscoito na bolsa) avise, sei de uma boa lanchonete e também onde achar água de coco natural. Mãe, ouviu bem? Tudo certo? Então, vamos agora!
Balancei positivamente a cabeça. Suas palavras de cuidado era mais do que cuidar, era desdobramento cuidadoso do zêlo e desvelo que me cercava. Eu amava chegar na 25 de março mesmo na condição de "criança" estabelecida por ela.
Pois bem. De certa forma vejo a Ladeira Porto Geral como um termômetro daquela agitação central toda. Quando o alvoroço é grande na Ladeira já percebe-se que dificilmente mais adiante vai estar por menos. Por sorte deparei-me com um aglomerado suportável, nem muito aperto, nem muito sufoco; sem sentir-me levada pela enxurrada de gente. Foi um passeio diferenciado que saiu a contento, de bom tamanho. O sol brando e fugidio disfarçado de mormaço moderou os excessos, surpreendeu.
Não costumo fazer planos, mas a 25 de Março volto a incluir nas minhas andanças.






segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O candeeiro

O homem montado a cavalo aproximou-se da casa e num gesto desesperado passou a vigiá-la, confiando que ali se escondia a esposa que havia fugido na noite anterior. Estranhamente paramentado estilava suor pela cara inteira: pingava, gotejava, sob um sol a pino ardendo, queimando como fagulha naquele verão causticante, atípico. Usava um traje que induzia semelhança e cópia de cangaceiro: cruzado de cinturão de couro, trespassado de faca, punhal, revólver, espingarda, e uma reserva de munição espantosa, provocando situação de pânico com o aparato assustador.

Acusava compulsivamente, desacreditando a dona da casa, forjando versões, criando inverdades. Não passava de uma figura espalhafatosa apregoando proezas e disparates de fanfarrão. Cercado por curiosos cuspia ódio, jurava vingança. Berrava o tresloucado homem que não arredaria do local sem arrastar a esposa consigo. Viajou quilômetros no lombo do cavalo cansado que suportava aquele corpo pesado, estufado de banha, decidido a não apear do animal. Esperneou bastante defronte o suposto esconderijo, bradou o que pôde. Uma espera inútil.

A fuga da mulher foi antes de tudo heróica. Partiu num entardecer sombrio em que a fazenda silenciava recolhendo-se ao repouso noturno. Um velho serviu-a de guia levando o candeeiro, antigo aliado, um tanto precário mas ainda capaz de alumiar o caminho. Os primeiros clarões do alvorecer apaziguaram o medo que acompanhou a jovem senhora noite adentro, varando matas, enveredando por trilhas estranhas e passagens íngremes, tortuosas, embrenhando-se no intenso e desesperado peregrinar.

A aragem matinal trouxe afago e alívio para seu corpo esbodegado. Afinal, pisava em solo distante, acolhida pela nova realidade sem jugo, sem posse. Assim dava cabo aos anos de submissão no claustro do casarão solitário. Rompia com as regras do dominador, resgatava sua identidade e autonomia. Reformulava na lucidez do momento a vida futura convicta de que jamais retrocederia ao mundo do qual escapou.

Seu pensamento corria no tempo exíguo que dispunha perante os fatos. Não podia se deter em devaneios e suposições. Teorias ficaram para trás. A racionalidade apontava os caminhos ainda a seguir, outras paragens a encontrar, conferir outra dimensão a seu destino. Definitivamente a liberdade havia chegado.

O velho e o candeeiro regressaram ao ponto de partida. O segredo ficou guardado no absoluto e eterno silêncio.











sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O Horário


Pois é, o horário de verão íntimo de uma boa parte dos brasileiros não deixa de ser novidade quando mostra a cara por essa temporada.

Com ele reaparece a velha querela. Os que se deleitam com a mudança, afinal usufruem melhor o tempo, quer no trabalho, quer no retorno ansioso para casa, nas compras, no lazer e na curtição, principalmente se o dia é daqueles festejados pelo Sol, combinação perfeita. E aqueles do outro lado, o pessoal que não o aplaude, que dentro das suas convicções não vêem motivos para saudá-lo visto se sentirem lesados por um horário manipulador, que vira de ponta a cabeça o relógio biológico das pessoas, interferindo no sono, obrigando-as madrugarem mais cedo, no serviço, enfim, que altera significativamente a rotina de todos.

Sinceramente não sinto maior apreço pela mudança. Embaralha, sim, meus horários. Desregula, impõe adaptações, remexe o dia a dia com a sensação de horas curtas voando. Quando sinto que me acomodei aos mandos e desmandos do horário fictício o seu tempo de permanência corre por um fio, esgotando-se para satisfação dos descontentes e desprazer de outros tantos.

Toda uma revolução girando em torno de quatro meses!